Centrais de triagem automatizadas: catadores saúdam implantação, mas exigem maior inclusão

Centrais de triagem automatizadas: catadores saúdam implantação, mas exigem maior inclusão

Samuel Ferreira

 

A implantação de quatro centrais de triagem automatizadas no município de São Paulo causou certa preocupação em lideranças de catadores organizados em cooperativas. Apesar de destacar o aspecto positivo do projeto, que visa dinamizar o trabalho, a categoria teme que a operacionalização dos novos equipamentos cause a redução de postos de trabalho, uma vez que exige menos mão de obra. A Prefeitura Municipal de São Paulo, no entanto, afirmou que os cooperados serão incluídos na gestão do processo e não perderão espaço.

 

Para Roberto Rocha, do MNCR, ideia é boa mas catadores querem inclusão e participação de fato na gestão do processo (Fotos: Samuel Ferreira)

 

O anúncio foi feito na tarde do último dia 20, durante a apresentação do Programa de Ampliação da Coleta Seletiva e Reciclagem em São Paulo, no Auditório da Prefeitura. Exposto pelo presidente da Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (AMLURB), Silvano Silvério, o plano prevê o aumento das atuais 249 toneladas diárias para 749 até 2014, evoluindo para 1.249 toneladas/dias até 2016, meta que, para ser alcançada, necessita da instalação das centrais mecanizadas e melhoria das cooperativas de triagem já existentes, segundo o poder público.

 

Equipadas com separadores óticos de materiais e eletroímãs, entre outros recursos tecnológicos, as quatro centrais mecanizadas serão capazes de processar 250 toneladas diárias cada, totalizando 1.000toneladas. Duas das primeiras centrais serão instaladas em áreas próximas aos transbordos da Ponte Pequena e Santo Amaro, onde deverão funcionar até junho de 2014. As outras serão concluídas até dezembro de 2016 e ainda não contam com locais definidos. Todas serão construídas e gerenciadas, inicialmente, pelas concessionárias LOGA e ECOURBIS, que já fazem a coleta de lixo comum.

 

Investimentos, custos e receita social

 

Cada central mecanizada terá um investimento na ordem de R$ 20,2 milhões – com exceção da central de Santo Amaro, que custará R$ 14 milhões, pelo fato de exigir menos investimentos na montagem estrutural -, num total de R$ 74,6 milhões, com custos operacionais de R$ 389 milhões mensais. A comercialização do material reciclável gerará uma receita social estimada em R$ 1,6 milhão mensal, valor que, segundo Silvério, será repassado às cooperativas de catadores.

 

De acordo com Silvério, a automatização do processo não irá prejudicar os catadores.”Nossa ideia é que participem da triagem e do processo de gestão desses galpões”, afirmou. Ainda segundo ele, a prefeitura irá protocolar junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) carta consulta para a obtenção de linhas de crédito para reformas, adequações, modernização e equipagem de 19 centrais de triagem existentes, além de qualificação do trabalho dos catadores, num montante de R$ 40 bilhões.

 

Segundo o secretário municipal de Serviços, Simão Pedro, a meta da atual gestão é aumentar a coleta seletiva de 1,8% para 10% nos próximos três anos, onde os serviços possam se estender aos 96 distritos municipais. Atualmente, 75 distritos são parcialmente atendidos pelo serviço.

 

Postos de trabalho e gestão compartilhada

 

Durante sua fala, Roberto Laureano da Rocha, da Coordenação Nacional do MNCR, disse saber da importância das centrais automatizadas, mas salientou que há incerteza entre os catadores a respeito de como isso vai beneficiar, de fato, a categoria.

 

“Nossa grande dúvida é saber como isso vai beneficiar os catadores e não uma grande usina com meia dúzia de catadores e o restante fora do processo! Então acredito que nós vamos debater e discutir muito essa questão. Essa é uma grande reivindicação dos catadores, como eles serão, de fato, inclusos nesse processo!”, afirmou.

 

“A velocidade da prefeitura foi muito mais rápida que a velocidade do Movimento e faltou informação para boa parte dos catadores. Agora nós vamos para o processo de construção de tudo isso. Precisamos fazer um encontro para explicar a todos os catadores o que de fato é esse modelo”, acentuou.

 

Rocha aproveitou a ocasião para solicitar ao prefeito Fernando Haddad que crie um comitê de inclusão do trabalho dos catadores na cidade de São Paulo, dentro dos preceitos da coleta seletiva solidária.

 

“Se estamos falando de coleta seletiva solidária, nós precisamos trabalhar os catadores de uma forma geral. Assim como existe um comitê de inclusão dos catadores em Brasília, podemos ter um comitê também aqui em São Paulo, onde todas as secretarias se conversem, falam sobre seus assuntos, porque existem questões de direito civil, assuntos de direitos humanos, saúde e moradia”, disse, entregando ao prefeito um documento sobre a necessidade de moradia para os catadores, questão que se desenrola há mais de dez anos, sem solução.

 

Coleta Seletiva Solidária, inclusão social, saúde e moradia também foram temas abordados pelas lideranças de catadores organizados

 

Ainda em sua fala, o líder dos catadores disse esperar que “depois de quatro anos, todos os catadores possam voltar aqui, dizendo “senhor prefeito, muito obrigado pelo apoio que o senhor deu, assim como o presidente Lula, aos catadores da cidade de São Paulo””.

 

Por sua vez, o prefeito Fernando Haddad saudou as lideranças de catadores organizados que estavam presente ao evento, dizendo sentir um grande prazer em recebê-los. “Eu aprendi, com o presidente Lula, que o lugar de vocês é dentro de palácios, portanto, a satisfação em receber vocês aqui no Palácio do Anhangabaú”.

 

O chefe do Executivo explicou aos catadores que foi desenhado um modelo institucional que contempla todas as centrais – mecanizadas e não mecanizadas -, para que eles façam parte do sucesso do empreendimento e não se sintam ameaçados pela modernização, ressaltando que a decisão foi tomada a partir de informações, relatórios e vídeos que mostraram ser possível compatibilizar a política atual dos centros de triagem com a mecanização de parte do processo.

 

Segundo Haddad, centrais mecanizadas não excluirão os catadores, que participarão da gestão e do resultado do processo

 

“Nós viemos rever todo o processo de reciclagem para dar dignidade ao trabalho de vocês, que foram os que nos ensinaram a olhar para aquilo que nós chamávamos de lixo e hoje não chamamos mais, porque hoje olhamos com outros olhos para aquilo que pode ser uma solução e não um problema. Foram os trabalhadores, os mais humildes, que ensinaram esse caminho, de olhar diferente, de olhar os resíduos sólidos como uma oportunidade de renda e sustentabilidade ambiental”, disse.

 

Inclusão social e diálogo

 

Na opinião do catador Eduardo Ferreira de Paula, do Comitê das Cidades do MNCR, o novo formato de trabalho da prefeitura é aceitável, mas desde que garanta a participação real dos catadores no programa.

 

“Esperamos que todos os catadores sejam incluídos nesse processo, que não seja feito só pelas empresas, mas sim com a participação dos catadores, na gestão compartilhada”, destacou.

 

Sobre a maior abertura de diálogo entre a atual administração municipal e os catadores, ele considera que “o diálogo foi uma coisa inédita que aconteceu e vai mudar a história dos catadores. Foi um diálogo bom e o que tiver de discutir vamos discutir coletivamente, junto com o poder público”.

 

Uma das lideranças, a catadora Luzia Maria Honorato afirmou que, apesar da necessidade de novas tecnologias, o formato das novas centrais apresentado pela prefeitura não atenderá o propósito de inclusão social, uma vez que permite a participação de apenas um número reduzido de catadores.

 

 

Para a catadora Maria Honorato (Esquerda), para dar certo, gestão deve ser feita com a participação total dos catadores

 

“Os gestores precisam se capacitar e se qualificar, de forma a se integrarem plena e totalmente ao processo mecanizado. Eu não consigo ver que esse formato gerenciado por empresários vá contemplar a necessidade do catador. Agora, gerenciado pelo catador sim, porque ele vai fazer uma distribuição coletiva”, acentuou.

 

Da mesma forma, Nina Orlow, do grupo de trabalho ambiental da Rede Nossa São Paulo, alertou ser fundamental que haja um esforço de inclusão do catador em todas as iniciativas sociais. “Estamos na expectativa de que isso realmente seja concretizado com o catador e não simplesmente uma empresa mecanizada, que vai ser operada só com um botãozinho. Queremos os catadores presente”, disse.

 

Nina: todas as iniciativas sociais devem contemplar o catador

 

Para ela, até que as centrais sejam implantadas haverá muito trabalho para a inclusão de todos os catadores da cidade e a ampliação da coleta seletiva pode ser feita com eles de imediato. “No próximo semestre, que realmente nós tenhamos estruturado as centrais de triagem, com equipamentos, luvas, as prensas funcionando, como um cuidado que a prefeitura deve ter para que realmente a coleta seletiva com o catador dê certo”, finalizou.

 

Acordo com setores

 

Em entrevista coletiva à imprensa, o secretário de Serviços frisou que foi estabelecido um compromisso com o setor privado, que deve comprar a produção dos materiais recicláveis, aumentada com a implantação das centrais mecanizadas e as adequações das centrais já existentes. Ressaltou ainda que os modernos maquinários das centrais mecanizadas exigirão um período de um a dois anos sob a gestão técnica das concessionárias, antes de serem passados definitivamente para a prefeitura que, seguindo a legislação, vai operar com as centrais, onde os catadores já estarão capacitados para o novo mecanismo.

 

“Como o prefeito falou, o trabalho das centrais não prescindem o trabalho das cooperativas. Ao contrário, nós queremos gerir o trabalho das centrais com o trabalho cooperado. Ele espera que essa parceria resulte também numa melhor distribuição de renda e ganho de todos os cooperados e, assim, a gente consiga competir com outros setores do mercado de trabalho”, disse.

 

Sobre essa relação com os setores industriais, Rocha frisou que a categoria está confiante quanto ao processo produtivo das cooperativas, para que os catadores possam ter um ganho equilibrado com o mercado e adequado para suas necessidades.

 

“Acredito que isso vai estimular, por isso estamos muito entusiasmado com o processo de ampliação da coleta seletiva, no ponto de vista de beneficiar diretamente esses catadores, que precisam, no mínimo, de um salário mínimo e meio para terem uma vida digna nos seus trabalhos”, afirmou.

 

“Outro fator que favorece a categoria é o comprometimento da prefeitura de que o resultado da comercialização dos materiais seja destinado às cooperativas, para organizar outros grupos”, finalizou.

 

Contra a incineração

 

Durante o evento, as lideranças do MNCR louvaram a posição da Prefeitura de São Paulo em não optar pelo modelo de incineração do lixo, ao contrário de várias prefeituras do Brasil. “É uma prefeitura que não está optando pela incineração”, disse Rocha, ao explicar um dos motivos do voto de confiança do Movimento na atual parceria de trabalho com a prefeitura.

 

Setor de Comunicação do Instituto Cata Sampa